Buscar no site

26/jul/2011

O papel da frustração

Autor(a): Jason Jair Frutuoso

O médico e psicanalista René Spitz, grande cientista e estudioso do desenvolvimento humano, nos ensina que a frustração é tão importante quanto o amor. Ela ocorre pela primeira vez no momento do nascimento e nos acompanha até o final da vida. Ao nascermos deixamos o aconchego do útero materno e recebemos de presente o mundo da luz, mas, embora com tão simpático nome, o mundo da luz tem lá seus problemas. Enquanto no útero materno o bebê vivia como um peixinho, sem nenhum trabalho para conseguir tudo que precisava para sua sobrevivência, fora dele, passa a enfrentar a intensa claridade e o barulho excessivo tão comum nas maternidades, apesar da recomendação em contrário. Como ele se divertia lá no útero materno! Como era fácil não ter que competir com ninguém! Suas necessidades eram satisfeitas sem nenhum esforço. Ele era um verdadeiro príncipe.

Fora do útero o bebê enfrenta outros tipos de frustrações, a começar pela necessidade de a mãe se ausentar de vez em quando. Nesse momento ele chega a odiá-la, por ter que esperar a volta do seio com seu sustento.

Nada fácil para ele enfrentar as fases da vida que sempre mudam, assim que se adapta a uma, a outra vem chegando, sem nunca poder retornar à fase anterior; tem que caminhar sempre para frente. Ele passa todo seu tempo desenvolvendo mecanismos para vivenciar a próxima fase, senão estará despreparado para continuar sua caminhada rumo ao futuro.

Mas a vida precisa mesmo de tantas frustrações? Sim! Assim será até a morte. Aliás, a morte é a única frustração que não nos educa, apenas reitera aos vivos o poder da força contrária. A frustração do cotidiano é necessária, quanto à morte, confesso não saber qual é a sua utilidade.

Nem os pais podem livrar o filho das frustrações?

Não, não podem. Eles podem até tentar, mas essa tentativa vai deixar o filho mal preparado para enfrentar o mundo. Quando os pais lutam com unhas e dentes para que o filho não tenha frustrações estão, na verdade, criando um fruto da superproteção.

Mas, o que é esse fruto da superproteção?

A educação é semelhante ao remédio. Se é dada em dose muito fraca não resolve, mas em dose alta demais, pode causar sérios efeitos colaterais.

A superproteção costuma vir de várias formas:

Mães carentes superprotegem o filho por precisar dele para suprir suas necessidades afetivas. Apresentam forte tendência a formar com ele um par simbiótico, gerando um indivíduo de personalidade frágil, que mais tarde manifestará insegurança quando tiver que tomar decisões importantes na vida; não vai desenvolver mecanismos internos adequados para resolver obstáculos que normalmente os que não são superprotegidos resolvem com facilidade. Para esses filhos, o simples fato de ter que se separar da mãe para frequentar a escola, ou para atividades sociais comuns na vida de uma criança, pode tornar-se um grande problema. Alguns não completam o processo de individuação e desenvolvem um quadro de “Ansiedade de Separação” que na maioria dos casos prejudica em muito a aprendizagem acadêmica. Geralmente a criança portadora desse distúrbio é filha de mãe ansiosa que também sofre ao separar-se dela. A separação pode ser encarada por mãe e filho como uma catástrofe.

– Pais muito inseguros que tratam o filho com tanta flacidez, por medo de perder seu amor, ou por pena, pensando ser ele frágil demais para receber os devidos limites. Pensam que as leis vão fazê-lo sofrer em demasia. Então o filho não vai aprender a lidar com as adversidades que a vida lhe imporá no futuro (Se o filho não aprender lidar com as frustrações, poderá reagir frente a elas com agressividade exacerbada ou mesmo se deprimindo. A vida pode tornar-se pouco gratificante e até mesmo muito aversiva).

– Pais extremamente rígidos, que agem de forma violenta para com o filho argumentando que, ”faço isto para o seu bem”, extrapolam os limites da necessidade de proteger e agem controlando-o de forma absoluta. Em nome de praticar um bem, despertam, em vez de respeito, o medo. (são extremamente autoritários). Por mais incrível que possa parecer, isto pode ser também uma forma de superproteção.

– Às vezes ela vem como forma de proteger quem superprotege: O pai pode agir de forma rígida demais com o receio de que o filho negue as característica paternas; entende que ele deve ser sua imagem e semelhança. Neste caso, superprotegendo o filho, o pai “estará” protegendo a si mesmo.

A superproteção traz prejuízos, ora para pais e para a criança, ora para a criança, ou ainda para outras pessoas. Em casos mais extremos para a própria sociedade.

 
Design: Fábrica de Criação   |   concrete5 - open source CMS © 2017 Jason Jair Frutuoso.    Todos direitos reservados.