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01/fev/2011

Humanização em unidade de terapia intensiva pediátrica

Autor(a): Dra Mércia Maria Fernandes de Lima Lira

(Dra. Mércia é Especialista em Pediatria e em Terapia Intensiva com Habilitação em Terapia Intensiva Pediátrica) 
 
Historicamente as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), em especial as pediátricas, surgiram com o objetivo de preservar a vida de crianças e adolescentes possuidoras de patologias graves. A principal ferramenta usada para a concepção desse objetivo foi o aprimoramento do conhecimento científico e o avanço tecnológico. Estes foram os fatores importantes para a mudança na evolução de maior sobrevida dos pacientes internados nas UTIs, mas o emprego e a valorização cada vez mais da tecnologia em detrimento de atenção aos pacientes tem produzido seus efeitos sobre os mesmos, sua família e a própria equipe de profissionais que trabalham nas UTIs. 
 
A internação é sempre uma situação estressante, principalmente se ela ocorre em uma UTI, onde a associação com perdas e morte é, ainda hoje, inevitável (Bedran – 1985). As UTIs são ainda hoje, em geral locais estranhos, com muitos ruídos, onde o paciente é submetido a muitos dos quais dolorosos, separados dos seus familiares, cuidados por estranhos. Estes são fatores considerados estressores por pacientes adultos internados em UTIs (Ballardi – 1981 , Novaes – 1997). 

O conhecimento dessa realidade, de que as UTIs são causa de estresse para os pacientes, seus familiares e também para as equipes da UTI que, até bem pouco tempo não eram valorizadas, está sendo responsável por uma mudança na visão do atendimento. 
 
A visão do intensivista hoje está mudando. Temos consciência de que a função da UTIs não se restringe a tratar apenas da doença e sim cuidar do paciente de modo que o mesmo não tenha seqüelas físicas nem emocionais decorrentes da internação. Por isso é preciso HUMANIZAR as UTIs. 
 
Humanizar significa tornar humano, afável. É um ambiente assim que precisa existir nas UTIs. Para isto é necessário uma intervenção efetiva. Mudanças nas estruturas, nos conceitos, derrubar obstáculos e tabus. É importante também compreensão dos fatores que produzem estresse e o planejamento de intervenções oportunas e eficazes. 
 
São muitos os fatores considerados como estressores pelos pacientes, familiares e equipe. São várias também as variáveis que interferem na produção dos mesmos. 

Para os pacientes, o nível de consciência é um fator importante, já que a percepção da UTI para pacientes que estão conscientes é diferente dos que não estão. O tipo de patologia apresentando também tem um importante papel na produção do estresse. O paciente que apresenta um politraumatismo múltiplo terá experiência diferente de um paciente que apresenta um quadro de asma (Robin – 1994). O grau de intervenção é diferente, o tempo de permanência e as experiências vivenciadas também serão diferentes. 
 
A idade da criança é um outro fator importante no nível de estresse associado com a admissão na UTI. A resposta vai depender do nível de desenvolvimento do paciente. São importantes as observações feitas em relação ao efeito da separação especialmente traumática no momento em que o paciente esta enfeitando uma doença que ameaça sua vida (Bedran – 1985, Farias – 1988).  
 
No lactente sabe–se que a privação materna é extremamente nociva do ponto de vista emocional e suas implicações com respeito a seu posterior desenvolvimento podem ser decisivas. O adolescente apresenta seu mundo próprio, esta em período de luta com os pais pela sua independência, pelo controle de usa vida, planejando o seu futuro. Em fase de inquietude em relação a sua imagem corporal e sexualidade. 
 
A doença aguda e o ingresso na UTI eliminam uma parte da sua independência. As decisões são tomadas e os procedimentos realizados sem a sua participação. A privacidade tão importante para o mesmo é em geral esquecida. Estes fatos fazem com que ocorra confusão em relação a seus sentimentos, e podem desencadear reações desde a depressão, regressão e rebeldia. Pode ocorrer também psicose. 
 
Em pesquisa realizada com adultos internados em UTI (Novaes – 1997) foram considerados pelos mesmos como estressores: sentir dor, sentir fome, sede, ficar contido ao leito, ser continuadamente manipulado, não saber onde está, não entender o que falam, não conhecer as pessoas que cuidam dele, ter luz continuamente acesa, ruídos excessivos, ter tubos na boca e ou narina, separação dos familiares. Em estudo realizado com recém nascidos (Guinsberg – 1998) foi observado que os mesmos quando intubados, sem receber analgesia apresentavam alterações fisiológicas, comportamentais e endocrinológicas decorrentes da dor, comprovando ser a dor uma causa de estresse. 
Os pais das crianças internadas nas UTIs, em pesquisa feita por Carter e Miles (1983) considerando como estressores mais importantes: A aparência dos filhos, ver tubos e sondas na boca e narinas das crianças, o fato delas não poderem falar, não receber notícias claras, não conhecer a equipe, não poder participar dos cuidados dos filhos, as visitas com o tempo limitado, os equipamentos. 
 
Para a equipe, o trabalho na UTI também é estressante. Fadiga pelo ritmo de trabalho excessivo. Lidar com a vida e morte continuamente. Questões éticas que cabem decisões freqüentes e difíceis, ambiente fechado, alto grau de exigência dos demais profissionais de saúde, dos próprios pacientes e seus familiares. 

É inquestionável que a atuação no âmbito da recuperação física do paciente na UTI é prioridade, mas hoje existe a consciência da necessidade de ser utilizar meios para combater o estresse decorrente da internação na UTI em todo o contexto. Sabemos que o estresse, resposta não especifica do corpo a uma demanda, desencadeia reações que inicialmente podem ser benéficas, mas se persistirem, serão responsáveis por aumento da morbidade e mortalidade dos pacientes. (Chororós – 1993 , Holst – 1998). Por estas razões, medidas devem ser adotadas, de acordo com a realidade e possibilidade de cada UTI, para diminuir o impacto negativo desencadeado pela internação na UTI. 
Citaremos medidas já adotadas em alguns serviços e que podem ser realizadas em todas. 
 
Medidas Gerais: 
1) Revisar o espaço físico destinado a UTI, verificando possibilidade de torná – lo mais agradável, funcional, com iluminação natural, climatização adequada. Dotar a unidade de equipe multiprofissional, com o recurso de psicólogos, assistentes sociais, terapeutas entre outros, para atender pacientes, familiares e equipe que também necessita de apoio.  
2) Instituir reuniões com os pais / equipe 
3) Ter uma sala de espera adequada para os familiares (exigência contida na PT / MS 3432 ) 
4) Um profissional de referencia a quem o paciente ou familiar possa recorrer. 
 
Para o paciente: 
1) A atenção ao paciente deve ser individualizada, observando as suas necessidades de acordo com a idade, o seu estado de consciência e patologia. 
2) Se dirigir ao paciente usando linguagem adequada a sua idade e nível cultural. 
3) Permitir que o paciente expresse seus sentimentos, sua ansiedade e medo. 
4) Prestar informações sempre que solicitado e quando da realização de procedimentos. 
5) Controlar a dor e a ansiedade com terapêutica adequada, fazendo uso de escala de avaliação da dor e nível de sedação e analgesia. 
6) Prover privacidade sempre que possível principalmente aos adolescentes. 
7) Promover entretenimento de acordo com a idade e necessidade da criança. 
8) Permitir permanência dos pais na UTI (direito assegurado pela ECA) e ou visitas com horários mais flexíveis. 
 
É importante entender que melhoria do relacionamento entre o Hospital, de maneira geral, e seu usuário não depende exclusivamente de técnicas, mas sobretudo de uma política de ação que não se omita no esforço da humanização de seus serviços, posto que a humanização é a característica fundamental de uma administração eficaz. Daí a importância de que o trabalho possa abranger todos os níveis de responsabilidades, ou seja, a equipe técnica, os próprios pacientes e seus familiares.

 

Fonte: portalhumaniza.org.br

 
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