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03/nov/2013

A saga de Zequinha

Autor(a): Jason Frutuoso

 

 

 

                   I - Introdução

 

 

Após militar pelos hospitais por mais de trinta e cinco anos, senti um forte desejo de ver representado em teatro, o que uma pessoa pode enfrentar ao necessitar de ajuda nos serviços de saúde. Caminhar por dentro dos centros de tratamento não é tarefa fácil nem mesmo para o mais experiente dos usuários. Imaginem uma família rica em saúde que de repente, tem o filho acometido por um súbito desmaio ao brincar alegremente com seus colegas no quintal de sua casa!

 

Esta história, embora seja uma ficção, nasceu por causa de milhares de pessoas que vi pelos corredores dos hospitais, cujos sofrimentos foram internalizados por mim ao longo de minha experiência como servidor da área de saúde. Minha mente acolheu as  imagens que certamente residirão em meu mundo interior para o resto de minha vida.

 

Meu personagem principal se chama Zequinha. Pretendo contar a história de sua maratona, sendo encaminhado para várias instituições de saúde pública e privada. No serviço público esbarra na falta de tecnologia e nas dificuldades dos próprios cuidadores que na maioria das vezes se vêem em situação precária para atendê-lo e solucionarem seu “grave” problema de saúde. Nas instituições privadas depara com a dificuldade financeira de sua família para arcar com os honorários muito altos e às vezes, até a discriminação. De todos os hospitais que procura, somente um lhe dá segurança, ou melhor, dá segurança à sua família. Sua mãe luta desesperadamente para conseguir uma vaga no referido hospital, mas para ter a vaga é preciso que um outro paciente abdique do tratamento. Os próprios profissionais de saúde devem escolher quem tem maior necessidade de se tratar. Ele pode ser escolhido por ser criança, mas ninguém poderá garantir que isto vai acontecer. Esta medida é muito desagradável para sua família, porque sua salvação depende de uma vaga que só surgirá com a desistência ou a morte de outro paciente. Fora que o médico poderá decidir que seu caso não deve  ser atendido primeiro. Pode entender que seu diagnóstico não é tão grave assim.

 

Afinal, quem ficaria satisfeito com este método de escolha? A mãe de Zequinha fica desorientada pensando que isto poderá acontecer com seu filho.

Como em nossa cultura as questões relacionadas à saúde e à educação sempre ficam a cargo da mãe, a situação fica muito complicada para Dona Carmita, que tem que administrar o problema de Zequinha.

 

Zequinha caminha com todas as forças – internas e externas –  para conseguir o tratamento para sua doença até então considerada muito grave, por causa dos sintomas apresentados. Mais tarde é diagnosticado um tumor benigno em seu cérebro. Mas mesmo sendo benigno, é uma ameaça por causa da área onde está localizado. O menino fica muito debilitado e o tempo do tratamento é demasiadamente longo.

                                            

 

               II - A História:

Zequinha está em sua casa, onde brinca com seus colegas, quando desmaia em plena brincadeira. Assustados, seus dois amigos, João Pedro e Marcelinho correm e gritam por Dona Carmita, mãe de Zequinha. Ela sai correndo à procura do socorro de sua vizinha Dona Marina, que também apresenta grande dificuldade para lidar com a situação. As duas pegam Zequinha e começam uma verdadeira via sacra em busca de solução para o caso. João Pedro e Marcelinho ficam trocando idéias sobre o desmaio do amigo. Outro dilema, é encontrarem um jeito de explicar o ocorrido para Milena –  a irmã de Zequinha – quando ela chegar da escola, e informar-lhe para onde Dona Carmita e Marina levaram Zequinha. Milena anda muito triste por causa da recuperação em matemática e isto será mais um complicador para sua vida.

 

Após vários meses de encontros e desencontros em seu tratamento, a família de Zequinha consegue mostrar para as autoridades, com a ajuda de Dona Marina, as deficiências dos Serviços de Saúde. Com muita coragem, acabam contribuindo para gerar um modelo de atendimento para toda a comunidade da cidade.  Modelo que mais tarde se transforma em protótipo de um Serviço Nacional de Saúde Pública.

 

Para chegar ao fim do seu tratamento muitos conflitos ocorreram.Os servidores da Saúde, alguns dispostos a aproveitarem de situações mais graves  para conseguirem benefícios na instituição e outros com o desejo de implementarem um atendimento mais humano em prol dos pacientes, que como Zequinha  procuram os serviços de saúde. Alguns servidores usam a tecnologia de modo adequado usam para conseguirem as mudanças desejadas.

           

Sheila, uma técnica do Serviço de Saúde, gera grande polêmica ao fazer pesadas críticas contra o empregador, contra os serviços da iniciativa privada e até mesmo contra familiares angustiados que acabam se exasperando nas reclamações contra a forma de atendimento do serviço de saúde.

           

Apesar de todo o drama vivido pelos servidores e usuários dos hospitais, ninguém consegue fazer chegar à instância superior (o topo da pirâmide administrativa), nenhuma queixa ou sugestão para que haja uma mudança no modelo de saúde.

           

O caso Zequinha, torne-se tão relevante que a mídia passa a ter interesse no tema. A partir de então surgem mudanças importantes que vamos conferir no final da peça.

           

O drama de Zequinha acontece na década de 90 na cidade de Cerrânea. Do momento do desmaio de Zequinha até o momento em que é liberado do hospital, ocorrem verdadeiros embates de sua família pelos caminhos de dentro e de fora dos hospitais. A mídia aproveita o fato para investigar os critérios utilizados pelos diretores dos hospitais públicos, principalmente os do Hospital do Bosque, o mais bem equipado e possuidor de profissionais da mais alta qualificação. É que este  hospital costuma ceder vagas para pacientes apresentadas por pessoas importantes de todo o Brasil, ou para as próprias pessoas mais famosas.

           

Dei o nome de Zequinha ao meu protagonista por se tratar de um nome que representa bem todos as crianças brasileiras, principalmente aquelas que, sem recursos financeiros acabam em monstruosas filas dos hospitais públicos, que nunca  são como o Hospital do Bosque.

           

Zequinha é muito curioso e tem o hábito de expressar todo seu sentimento através da fala. Por isso seu fardo nunca é suficiente para debilitá-lo totalmente e seus recursos internos são bastante para não deixá-lo à mercê de um estado depressivo. Esta característica o ajuda muito a resolver os problemas que o rodeiam, o que  facilita em muito sua relação com o meio hospitalar e seus procedimentos.

           

É um menino que fala bastante sem muitos erros de português.

           

Carmita tem dois filhos e é uma mulher meiga, um pouco submissa, mas que toma as decisões na hora certa. De certa forma acabou dominando seu lar, porque, além do que reza nossa cultura, seu marido Toninho é extremamente passivo, é muito trabalhador, tira do dinheiro que ganha apenas o suficiente para fazer suas apostas em jogos de sinuca, sendo expert nesse ofício. O resto entrega para Dona Carmita.

           

Marina é uma mulher descasada e atirada, fala o que pensa sem medir as conseqüências e deve aprontar bastante com suas falas incisivas, até o momento em que confronta com Sheila, aquela funcionária meio despudorada. As duas aprontam tanta confusão, que mobilizam uma multidão de pessoas em um hospital público. Até médicos e outros profissionais da saúde saem para ver  o embate das duas.

 

Zequinha é moreno, questionador e talentoso ao falar, mas a partir do momento do desmaio fica bastante reflexivo e calado. Tem nove anos. Seu principal conflito é a falta que o pai faz, porque além de trabalhar muito passa boa parte de tempo jogando sinuca. É o filho mais moço de dois. Sua irmã Milene tem 11 anos de idade.

           

Sheila é uma mulher temperamental que não mede as palavras quando contrariada. Não gosta do Zequinha, acha-o moralista demais para a idade. Ele mobiliza nela sentimentos em relação ao seu irmão mais velho que gosta de olhá-la com ares de autoridade, ofuscando-a.

 

João Pedro é um garoto de 10 anos e vive com seus familiares perto da casa de Zequinha. É estudioso, preocupado com as coisas, faz qualquer sacrifício para resolver o problema de seus amigos. Foi criado praticamente junto com Zequinha, no mesmo bairro. Lá os vizinhos são muito amigos e um participa dos problemas dos outros. Basta surgir um problema qualquer, que todos os outros se mobilizam pára ajudar. Ele assimilou bem este modelo de relacionamento e hoje acaba pagando um preço, já que é altruísta e muito ansioso.

 

Marcelinho tem nove anos de idade, chegou para a comunidade com sete anos e seu vínculo é maior com o João Pedro. Não demonstra muita preocupação com os problemas da comunidade. Seu pai, um alcoólatra inveterado, sempre lhe causou muita revolta. Trabalha, mas sobra muito pouco para a casa. Sua mãe  trabalha muito e consegue dar conforto para a família. Ela também quer ajudar Zequinha, mas como o filho, não é muito vinculada à comunidade. Portanto está sempre um pouco de fora. Marcelinho se torna facilmente agressivo e reage xingando o médico de Zequinha em resmungos que saem entre os dentes. Com os colegas passa facilmente a agressões físicas. João Pedro tem dificuldade para conversar com ele sobre o drama de Zequinha.João Pedro busca compreensão do caso enquanto Marcelinho, embora sempre verbalmente agressivo, mostra-se bastante apreensivo.

 

Milena é uma menina sensata, moderada em suas ações e muito amiga do irmão. Fica muito angustiada com a doença de Zequinha, pensa muito na possibilidade de ele morrer e apresenta solilóquios em vários momentos. Tem medo de ficar só sem o irmão. “Se eu ficar sem ele quem vai ser minha companhia?” Neste momento pensa na jogatina do pai que raramente faz companhia para os filhos."Se meu pai cuidasse direito de nós, ia ser mais fácil!"

 

Os parentes de Zequinha não aparecem na peça, mas certamente todos estão mobilizados em prol de seu sucesso. Dona Marina e Carmita comentam com emoção sobre eles, e referem-se à solidariedade deles para com Zequinha. Também falam sobre o impacto que a doença causa sobre certos membros da família.

 

O bairro onde se passa a história de Zequinha chama-se Cidade das Flores. É um bairro de classe social mista. Alguns mais favorecidos economicamente, outros mais limitados, mas ninguém vive na miséria. Planejado urbanisticamente, crianças e adultos vivem com bastante serenidade. Lá existem os conflitos familiares, mas seus moradores conseguem camuflá-los com alguma “inteligência.”

Hospitais por onde Zequinha percorre à procura de ajuda:

a) Pronto Socorro João Paulo Segundo, extremamente lotado, onde pacientes esperam horas e horas por um atendimento. Com alguma sorte crianças poderão encontrar Dr Wiliam e sua esposa Dra Elizabeth, que mesmo não oferecendo atendimento para qualquer doença, são muito humanos e bons encaminhadores para os portadores de patologias infantis.

b) Hospital Neurológico, Divina Providência: Seu movimento diário é semelhante ao do Hospital João Paulo Segundo e ainda falta-lhe a sorte de ter em seu quadro funcional Doutores como Wiliam e Elizabeth.

c) Hospital do Bosque: Tem ajuda efetiva dos empresários e da comunidade. Aqui o governo se eximiu de suas responsabilidades que foram acampadas pelos cotistas (pessoas e empresas, amigos do Hospital do Bosque). É um hospital de primeiro  mundo, mas por isso ele vive um grande problema.Lá existem os tais pedidos políticos e empresariais que acabam por levar ao hospital a uma seleção desigual. Como ele é relativamente pequeno para o tamanho da demanda, torna-se quase impossível marcar uma consulta sem a interveniência de uma pessoa influente politicamente. Seus servidores são muito humanos e competentes. Possui aparelhagens de última geração. Milhares de doentes estão buscando atendimento e algumas centenas conseguem o atendimento. E são bem tratados! Mas o seu maior problema é que ele embora seja um hospital público, está se transformando em um Centro de Tratamento da Elite em Cerrânea.

                       

Neste momento surge em mim uma questão: É viável contar esta história no teatro, ou pelo menos nos auditórios dos hospitais para servidores e usuários assistirem?

            Em quanto fica realizar este desejo?

            A quem devo procurar?

            Fica bem se contada em Teatro de Bonecos?

            E se for contada em historias em quadrinhos?

 

 

III - Roteiro:

            Zequinha, Marcelinho e João Pedro encontram-se brincando no quintal da casa de Zequinha.

            Eles utilizam bonecos modelo de soldados  combatentes, uns helicópteros e outras armas de guerra. Um dos helicópteros está suspenso por um fio de nylon quase invisível e os soldados ora estão presos no helicóptero e descem para o combate. Outras vezes descem deslizando por um cabo. A criança empurram também atacando  seus oponentes, com os carros de combate. Como sempre se divertem muito com a brincadeira.

ZEQUINHA – Meu exercito tá vencendo. Sou Americano, sou mais forte do que todos. Derrubei seu helicóptero Marcelinho, você é o paraguai.

JOÃO PEDRO – Vou colocar meu exército em campo, vocês vão ver quem é o melhor. Sou o Japão. Tenho as melhores máquinas do mundo. Saiam da frente que meu tanque vai passar. Vou atacar pelo céu e pelo mar. Fogo!

            Em pleno combate, Marcelinho dá um grito muito alto.

MARCELINHO –  João Pedro, olha o Zequinha, ele ta muito esquisito, olha João.

            João Pedro com uma fala tensa e angustiada se apavora e começa a sacudir Zequinha:

JOÃO PEDRO –  Zequinha! Zequinha! o que, que foi Zequinha?Zequinnnnnnhhahaa...

MARCELINHO – Vamos! chame tia Carmita. vamos João! vamos! depressa! venha João!

JOÃO PEDRO –  Um tem que ficar aqui. Corre lá Marcelino. Eu fico aqui. Zequinha, me responde, Zequinha, fala Zequinha!

            Zequinha abre os olhos e olha demoradamente para o rosto de João Pedro, mas nada consegue falar.

           

Marcelinho entra correndo casa   a dentro com uma cara de assustado e grita:

MARCELINHO – “Tia, o Zequinha caiu tia. Venha correndo! venha tia.!

CARMITA - Agora não posso Marcelinho, vocês resolvem lá crianças! Chame o médico do exército de vocês! Ela pensa que eles estão falando da brincadeira.

MARCELINHO –  Não tia, não to brincando não tia. Ele desmaiou mesmo, é verdade!

CARMITA - Eu hein! desmaiou, deixe-me ver que coisa é esta que este menino está falando!(solilóquios)

Ao chegar lá fora: CARMITA –”Meu Deus!”(Sai correndo e deixa as panelas no fogão).( Ao chegar no quintal encontra o filho desfalecido e ele olha demoradamente em seu rosto. Sua linguagem demonstra claramente para Carmita que algo de muito errado está acontecendo.

CARMITA –  Filho! filho! O que foi meu filho?

Zequinha continua olhando para a mãe, mas não diz nenhuma palavra e Carmita o interpela:

CARMITA –  Fala pra mamãe meu filho! O que fizeram pra ele, Marcelinho?

MARCELINHO –  Foi assim que aconteceu, ó Tia. (Cambaleia, roda e cai para mostrar como Zequinha caiu).

CARMITA –  Me respondam: O que vocês fizeram com ele?

João Pedro em estado de choque responde para Dona Carmita:

JOÃO PRDRO –  Nada tia. Só estávamos brincando!

(Marcelinho confirma)

MARCELINHO – É mesmo tia, quando a gente atacou o exército dele, ele ficou rodando e caiu.

CARMITA – Que história de ataque é essa, meninos? Como foi que  vocês o  atacaram ?

JOÃO PEDRO – (muito assustado  interfere): Tia, nós atacamos foi o exército dele, foi de brincadeira.  Não sei porque ele caiu não, tia.

MARCELINHO – É isto mesmo, Tia Carmita.

CARMITA (volta a insistir com Zequinha) – Zequinha o que aconteceu?

ZEQUINHA –  Nada mãe.(voz baixa e fraca)

CARMITA –  Como nada meu filho?

ZEQINHA –Não sei.(voz fraca)

(Mas,  continua alheio ao que dizem e não parece entender o que se passa).

Carmita telefona para o marido. O telefone toca, toca e ele não atende. Ela roga a Deus “Oh meu Deus, onde anda Toninho? Ele deve estar trabalhando, mas a essas horas pode estar no bar jogando. Meu Deus, que sina esta minha! Chame Marina, Marcelo, por favor!

MARCELINHO – Tá bom, vou chamar. (Sai correndo e chama). “Tia Marina, a Tia Carmita tá te chamando, o Zequinha não ábem.”

MARINA – O que Marcelinho, como não está  bem? O que é que foi?

MARCELINHO – Vai logo tia. Não quero falar mais disto não!

MARINHA – Tô indo.(larga o trabalho intelectual que está fazendo e sai rapidamente)

MARINA – O que foi Carmita? O que houve com o Zequinha?

CARMITA – Ele desmaiou. Parece que é isso. Ele tonteou e caiu, perdeu o sentido, sei lá. Já liguei pra Toninho e ele não atendeu. Zequinha precisa ser levado pro hospital. Zequinha nunca passou mal assim. Zequinha nunca teve nada, meu Deus! E agora? MARINA – Fique calma, muié. Tudo vai dar certo. Deus vai ajudar. Espere um pouco. Vou pegar o carro e levar vocês pro hospital, mas qual hospital Carmita? Onde leva um menino que desmaia?

CARMITA – Vamos pro hospital João Paulo II, lá tem  Pronto Socorro. Alguém vai nos orientar. Vamos, Marina, o tempo tá passando e ele pode piorar.

CARMITA –  Pega o filho- “Venha cá meu filho! Tia Marina vai nos levar para o João Paulo II, O Dr. Vai te examinar meu filho!”

Zequinha Recobra a consciência e pergunta para a mãe:- Mãe, o que aconteceu comigo? Porque nós vamos pro hospital?

CARMITA – Você passou mal meu filho, mas deve ser coisa à toa. Vamos entrar no carro, vamos me dá sua mão. Vamos! E ele começa a desmaiar de novo.

            Chega ao hospital e Marina faz a ficha para o atendimento. Enquanto isso, chega em casa o pai de Zequinha, O Toninho.

TONINHO –  Menino, Marcelinho, você viu minha esposa por aí? Cadê o Zequinha?

MARCELINHO – O Zequinha desmaiou tio e a tia foi levar ele no hospital, Paulo II.

TONINHO –  O que? Desmaiou? Como? Que história é esta cara?

MARCELINHO – Ele caiu na hora que a gente brincava. A tia Carmita ligou pro Senhor, mas o telefone tava desligado. Tia Carmita chorou e Tia Marina foi levar eles no Hospital.

TONINHO – Meu Deus! Puxa vida! Ai meu Deus! o que, que eu faço agora? Cadê Milena?

MARCELINHO – Ela ta em minha casa. Minha mãe ficou consolando ela.

TONINHO – Fala com ela que fui pro hospital, pra ela ficar na sua casa até eu voltar! Diga pra ela ficar legal aí que eu vou ver o que tá acontecendo com Zequinha!.

            No hospital João Paulo II:

ENFERMEIRA SHEILA –  (faz a chamada) José de Matos Silva Neto.

CARMITA – Aqui moça!.

SHEILA – O que foi garoto? O que você estava aprontando? Vai ver que caiu de mangueira hein? Mais um peraltinha aqui Doutor. Entra aqui Dona Maria! A ficha dele tá aqui Doutor.

DOUTOR WILIAN – O que foi meu amigo? Venha cá que eu vou te examinar. Fique calmo que tudo vai dar certo. Fique aqui perto de Dona Carmita. Chega Dona Carmita, fique pertinho dele.A assim poderá ficar mais calmo.

            Chega Toninho apavorado e entra depressa:

SHEILA – Aqui não é sua casa não, pêra ai moço. E segura Toninho.

TONINHO – Me larga dona!  Não ta vendo que meu filho ta doente? Me deixa!

SHEILA –  Aqui não é casa da sogra não cara!

Dr WILIAN – Por favor Sheila. Deixe entrar o pai!

TONINHO – Carmita, como foi? Fale! Ele desmaiou por que? O que fizeram com ele?

CARMITA – Ele passou mal, desmaiou. Mas eu não sei o que que foi não. O Doutor tá examinando. Depois ele vai falar o que devemos fazer.

DOUTOR WILIAN – Sente-se ai Senhor Toninho. Fique tranqüilo que assim que tivermos alguma coisa nova eu lhe comunico.

TONINHO – Será que é grave, Doutor?

Dr WILIAN – Ainda vamos fazer alguns exames. Um eletroencefalograma e estes exames de sangue e de urina aqui. Leve Zequinha lá no laboratório, Sheila!

SHEILA – A coisa tá feia, hein garoto!

CARMITA –  Feia como Dona? A Senhora tá falando e eu tô cada vez mais confusa. Dá pra senhora parar de falar?

TONINHO –  É isso mesmo Dona. Pare de falar, porque eu já não tô bem. Pare de falar!  (pede gritando).

Dr Wiliam - Fiquem todos calmos! Vá e faça os exames, amigo, e traga aqui para mim os resultados. Espere que vou pedir também um Raio-X para sabermos o que Zequinha tem nesta cabecinha.

TONINHO – Será que é grave Doutor? E faz seus solilóquios: “ este negócio de Raio-X de cabeça!Exames! sei lá! Sei não, Carmita! sei não!”

            No laboratório passam uma tarde inteira esperando, até que chega a hora de Zequinha ser atendido.O R-X agora só no outro dia. Eles precisam ir embora porque deixaram Milena na vizinha e ela nunca havia ficado fora de casa. Devia estar muito apavorada.E ela está mesmo desesperada com a demora de seus pais e porque não sabe o que aconteceu com o irmão.

MILENA – Tia Luciana, tô com muito medo de meus pais não voltarem e também de Zequinha morrer. Será que ele pode morrer? Será que ele vai sarar?

LUCIANA – Fique calma Milena.Depois também, sua mãe já ligou e disse que Doutor Wiliam é o melhor médico do Pronto Socorro. Quer saber de uma coisa, Milena? Acho mesmo que ele é o melhor da cidade.

            Os pais chegam em seguida. O pai muito estressado é interpelado por Milena que quer saber tudo sobre o problema do irmão.

MILENA –  Papai, como foi lá, papai?

TONINHO – Mal. Muito mal. Amanhã temos que voltar naquele hospital. Demoraram muito a nos atender. Quando os exames ficaram prontos Doutor Wiliam havia saído. Não tem diagnóstico. Não sabemos o que seu irmão tem. E você se comportou legal ai na casa da tia Luciana?

             Dona Luciana se adianta a Milena e diz: -Sim, sim, senhor Toninho. Ela só ficou preocupada demais, mas já contei a ela que Doutor Wiliam é o melhor médico da cidade e que ele é o médico de Zequinha.

CARMITA –  Você conhece ele, Luciana?

LUCIANA – Sim, ele salvou meu irmão. Ele encaminhou meu irmão para tratamento e deu certo. Ele esposo de Doutora Elezabeth. Ela também é um colosso.

CARMITA –  “Amanhã, vamos voltar lá de novo para fazer o resto dos exames que o Doutor Wiliam pediu. Ele quer vê-los. Vá dormir Zequinha! Vá meu filho! Amanhã você tem que  levantar  cedo. Temos mais coisas para fazer.

            Zequinha,  exausto, não quer ir mais ao hospital:

ZEQUINHA –  To com vontade é de brincar com meus amigos!

TONINHO –  Mas você tem que ir, mocinho! Vamos ver o que este famoso Doutor tem a nos dizer.

            Conseguem realizar a radiografia e o servidor da radiologia acaba cometendo uma falha ao adiantar o prognóstico antes mesmo do diagnóstico.

PAULO –  O negócio aqui não tá muito bom não Seu Toninho.

TONINHO –  Mas como? O que que você está dizendo moço?

PAULO –  Nada! Nada não senhor! È melhor falar com o médico.

            Paulo entrega a película para Toninho e entra para seu local de trabalho. Toninho sai desabalado e novamente chega de forma inadequada para mostrar o resultado para Dr. Wiliam e é recebido por Sheila.

SHEILA – Hei! O Senhor não pode entrar assim! Não é casa de Mãe Joana não, cara! Vou chamar o guarda.

TONINHO – Chama logo este guarda que eu quero falar com ele pra te prender. Você não presta, sua merda. Saia da minha frente! (Empurra Sheila). O guarda lhe agarra e chama a polícia. Ele desacata o policial  e complica ainda mais a situação de Zequinha.

Guarda (agarra Toninho) - Ligue pra polícia ai porteiro!

PORTEIRO – Sim Senhor.

CHEGA O POLICIAL: “Vou lhe prender, Seu Toninho. O Senhor está perturbando a ordem do hospital!”

TONINHO – Vai me prender coisa nenhuma! Você tem que prender é esses sem vergonhas que trabalham nestas peluncas de hospital!

 Dra ELIZABETH –  Desculpe policial, deixe ele! Eu sei do drama deste homem. Ele não pode ser preso assim! Ele está lutando pelo filho doente. Sheila, por favor. Saia daqui!  Eu vou conversar com esta família.

SHEILA – A Senhora também não respeita o funcionário público. Ele cometeu crime contra uma funcionária pública. Veja o artigo número --!

Dra ELIZABETH –  Saia Sheila! Saia daqui! Você passou dos limites.

Sheila – Eu saio, mas ele vai se ver comigo. É por isso que o menino adoeceu. Também, com o pai que tem.

Carmita – Chora e demonstra estado de choque. Dr. Wiliam e Dra Elizabeth estuda o caso e mandam entrar os pais.

Dra ELIZABETH – Seu Toninho e Dona Carmita entrem aqui opor favor! Podem trazer o Zequinha.(Eles entram muito assustados)  .

Dr WILLIAN – Vu conversar com vocês agora e contar tudo que sabemos sobre o problema do Zequinha. E também sobre os encaminhamentos que vamos fazer e o que vocês devem cumprir bem à risca. Escutou bem Zequinha? Você deve continuar contribuindo para o tratamento! Assim vai ficar bom logo.

ZEQUINHA – Oque o Doutor ta falando pai?

TONINHO –  Sei lá. Sei lá o que, meu filho.  Já não sei mais de nada. Só sei que estou cansado.

CARMITA –  Calma gente! calma! esperem o Doutor falar! Nós ainda nem sabemos o que Zequinha tem.

Dr WILIAN – Nem mesmo eu sei. Mas os exames que tenho me permitem encaminhar o Zequinha para quem pode ajudá-lo melhor do que nós.Vejam!Todos os exames de laboratório apresentaram resultados não muito preocupantes. Só os exames de Raios-x apresentaram uma coisa (aqui ó). Está numa região em que se for preciso operá-lo não teremos muitos obstáculos. O resultado da histologia não mostra que ele tem um tumor maligno. Assim sendo, nosso prognóstico para o caso é bom. Mas vocês sabem, este tratamento deve ser feito por outra equipe. Espero que vocês tenham a tranqüilidade necessária para levarem a frente todo o trabalho já desenvolvido até aqui.Temos o Hospital Neurológico de Cerrânea para onde poderíamos encaminhar o caso, mas, no Hospital do Bosque o problema  de Zequinha poderá ser  esclarecido melhor.

            Enquanto Dr Wiliam fala, a família fica bastante assustada e Toninho muito inquieto(apresenta forte inquietação motora). Interrompe o médico.

TONINHO – Dr, que história é esta? Que negócio sério. Pra quê tantos encaminhamentos? Não entendi nada que o Senhor falou. Até agora não tem nada definido. E o que vamos fazer com esta situação do nosso filho, Doutor? Acho que vou levar ele pra São Paulo. Se eu pudesse  levava ele pra fora do Brasil. Aqui na cidade o serviço não é bom. Bem que o deputado falou Doutor, que o melhor hospital daqui é a ponte aérea. Mas eu não sou político, né Doutor?

            Dona Carmita se impacienta com o marido e Marina também já anda pra lá e pra cá, demonstrando muita insatisfação.

CARMITA – Olha aqui rapaz, (dirigindo-se a Toninho)- Você anda sempre sumido, nunca participa dos problemas da casa agora vem impondo sua fala? Eu não agüento mais!

MARINA –  Vamos ouvir o Doutor Wiliam!

Dr WILIAN – Como eu estava dizendo, o hospital neurológico é bom, mais o Hospital do Bosque é melhor quando se trata deste tipo de problema. E é bom que se diga; é um hospital muito humano, principalmente em se tratando de criança. Lá, vocês vão ter uma equipe de neurologistas, oncologistas, hematologistas, psicólogos, assistentes sociais e..

Toninho- ( Fazendo seus olilóquios, interrompe o Doutor)- Mas porque aquele sujeitinho do R-x  disse aquilo?

            Zequinha demonstra muito cansaço e chama para ir embora.

ZEQUINHA – Vamos embora mamãe, quero ir pra minha casa. Quero brincar com meus amigos.

            Dr. Wiliam pede Dra Elizabeth para conversar com Zequinha enquanto ele mesmo telefona para o Hospital do Bosque. Doutora Elizabeth conversa e brinca com Zequinha e arrisca dizer para ele o significado de alguns de seus desenhos e o encoraja a participar ativamente do tratamento no Hospital do Bosque.

Dra ELIZABETH –  Hoje mesmo você vai ser atendido lá Zequinha!

Dr WILIAN POR TELEFONE – OK Antonio Carlos. Já que a internação é difícil, pelo menos quero contar com você para o estudo de caso do garoto com sua equipe. Eu poderei comparecer e participar.

 Ótimo, de hoje há três dias. Vou colocar na minha agenda.

            Sheila passa perto da sala onde a família está reunida com o Dr Wiliam e faz um de seus gestos desabonadores.

SHEILA –  Ishi.! tô fora! Este Doutor pensa, que é o dono do hospital.

            Dra Elizabeth escuta o que diz Sheila e intervém.

Dra ELIZABETH –  Espere um pouco, gente, que vou resolver um problema ali e volto já. Fique aqui Zequinha com sua mãe.  (Vai ao diretor pedir uma providência contra Sheila).

DIRETOR Dr ALMEIDA –  Deixa Beth, que eu vou chamar o chefe dela e explicar a situação pra ele!

Dra ELLIZABETH –  Espero que ele resolva este problema Almeida, porquê temos que zelar pelo nosso bom nome enquanto é tempo.

            Doutor Wiliam comparece ao estudo de caso e a equipe de Dr Antonio Carlos conclui o diagnóstico. Zequinha tem mesmo um tumor no cérebro, mas pelos exames já concluídos, acham que o tumor pode ser benigno. A internação está difícil, o hospital está lotado. A maioria dos pacientes é afilhados de políticos “importantes”. O Hospital do Bosque é usado por alguns inescrupulosos como forma de angariar votos. Está chegando o tempo da eleição.

ELIZABETH –  Wiliam, e agora? Já que nos envolvemos no caso, vamos tocar pra frente.

Dr WILIAN – Para tocar pra frente temos que mexer numa verdadeira casa de marimbondos .

Dra ELIZABETH –  Mas eu topo mexer com estes marimbondos que você se refere. O caso Zequinha pode servir para uma grande reflexão. Ou eles aumentam e padronizam o serviço de saúde ou param de favorecer estes inescrupulosos!

            Os dois chamam os profissionais do hospital para uma reunião, mas eles, sabendo dos melindres que envolvem o serviço de saúde pública da cidade preferem não aceitar. Dr. Antônio força a internação de Zequinha, com a alegação de  se tratar de um caso muito grave. Ele queria evitar escândalos e a exposição do hospital.

Dr. Antonio Carlos, por telefone- Dr Roberto, preciso conversar com você sobre um paciente. Dr Wiliam ligou para falar do caso. Ele e sua esposa estão muito interessados no tratamento. É um tumor cerebral que precisamos investigar melhor.

Dr ROBERTO –  Mas não temos vaga não, Antonio Carlos. As duas que teríamos estão comprometidas com o deputado. Você sabe quem é!

Dr ANTÔNIO CARLOS – Mas ROberto, não podemos deixar esta criança sem atendimento. O Dr Wiliam é muito sério e ele vai participar do estudo do caso aqui com minha equipe para buscarmos um melhor diagnóstico.

Dr Roberto –  Mas este Wiliam é um chato, hein. Já vem ele com aquela história de defender os pobres. Ele nem imagina as consequências que teremos, se deixarmos o deputado frustrado.Ao lado dele temos o Senador. Aquele grandão. O Ronaldão. Aquele lá de Minas. Nosso interesse é fazermos mais um deputado para nos ajudar naquele caso encalhado lá no Congresso. Sem isso nossa categoria será perdedora.

Dr Antonio Carlos- De forma nenhuma podemos expor nosso hospital. Precisamos manter a excelência de nossos serviços, conhecidos no Brasil inteiro. Acho também que não devo deixar a questão ética por causa de nenhum outro interesse.

Dr Roberto - Olha aqui ô Antonio Carlos. Você está criando  problema por causa de um menino.Você parece não entender que sua equipe é conhecida no Brasil todo porque seus clientes são todos de boa linhagem. Claro que pretendo deixar entrar em nosso serviço um bom número de clientes de baixo nível sócio-econômico. É uma boa maneira de não sermos incomodados por este povo que pensa que devemos salvar a pátria deles, atendendo uma clientela que não produz em termos políticos. Afinal, onde fica nosso nome e a nossa relação política?

            Dr Antônio Carlos bate o telefone, sai indignado e tenta marcar uma reunião com sua equipe multiprofissional. Não consegue; todos estão com medo de ferir o Dr Roberto. Eles mostram medo de represálias.

Dr Roberto - Cássia,(secretária)- localize o Dr Antonio Carlos com urgência e peça a ele para vir em meu gabinete! Quando ele chegar saia e nos deixe sozinhos por favor!

Cássia- (Com os olhos arregalados, responde)- Sim, Doutor. Vou providenciar seu pedido.

CÁSSIA – Alô! Dr Antônio Carlos. O Dr Roberto quer conversar com o Senhor com urgência. Está lhe esperando no gabinete.

Dr ANTÔNIO CARLOS –  Pode adiantar o assunto, Cássia?

CÁSSIA –  Não, Doutor. Ele está muito angustiado. Foi o que me pareceu.

             O Dr AntÔnio Carlos sabia dos trâmites usuais no hospital do Bosque, mas como ainda podia desenvolver seu excelente trabalho, fazia vistas grossas para os métodos de Doutor Roberto. Ele consegue dois servidores de sua equipe e junto com eles vai ao gabinete de Doutor Roberto.

Dr ANTÔNIO CARLOS –  Estamos aqui Roberto. Podemos conversar?

Dr ROBERTO –  Posso falar com você a sós, Antonio Carlos?

Dr ANTÔNIO CARLOS – Não! O assunto que vim tratar aqui deve ser de interesse deles também. Penso que você quer falar sobre José de Matos Silva Neto, O Zequinha. Aquele que espera uma vaga para tratar seu tumor cerebral.

            Dr Roberto fica bastante furioso, mas aceita o que lhe impõe o Dr. Antonio Carlos.

Dr ROBERTO – Ta bem Antonio. Ligue lá na internação, ou melhor: Cássia(fala alto) chamem a Cássia !

CASSIA –  Sim Senhor, Doutor.

Dr ROBERTO – Vá lá e entregue este bilhete (escreve o bilhete) e espere a resposta deles sobre a hospitalização ainda hoje desse garoto. Tá escrito aí no bilhete. É o José de Matos da Silva Neto. Diga que o Dr Antonio vai examiná-lo juntamente com sua equipe.

            Dr ROBERTO (fica resmungando): Povo besta! Politicamente correto. Peça para colocarem mais um leito na enfermaria 217, porque se o amigo do deputado vier, não poderá faltar a vaga! Ouviu Cássia? (grita bem alto)

Cássia – Sim senhor, Doutor. Sim senhor.

Dr ANTÔNIO CARLOS – Ao telefone celular afastado de Dr. Roberto- Wiliam, tudo ok! O Zequinha será internado ainda hoje. Mas se você puder, gostaria de conversar ainda hoje, para lhe contar sobre alguns de nossos problemas no Hospital do Bosque. É confidencial e quando puder me ligue!

Dr ROBERTO –  Cássia, ligue para os pais do tal Zequinha, e avise que um carro irá apanhá-lo dentro de uma hora para ser internado no Hospital do Bosque. Peça para o motorista ir com o carro oficial. Não deixe que ele vá com a ambulância, não! Tá me ouvindo??? (fala muito alto e meio indignado).

CÁSSIA – (Com o rosto muito desconfiado)- Sim Doutor, sim senhor.

            Buscam Zequinha e quando chegam em casa dele:

TONINHO –  Não to entendendo nada. Pobre nunca consegue nada. Tô até desconfiado. O carro... Carro do Diretor?

ZEQUINHA – (Agora mais alegre)- Êba. Olhe o carro que veio me buscar Milene! Vamos comigo, vamos!..

MILENA – Não, Zequinha. O papai falou que não posso entrar no hospital (Demonstra tristeza).

ZEQUINHA – Ha! há! há! há! vou levar meu cachorro, meus brinquedos e meus amigos.

CARMITA – Não senhor, meu filho. Lá no hospital nada disso pode entrar! Vamos logo! chegando lá eu converso com o Doutor. Ai ele é que vai decidir tudo.

ZEQUINHA – Droga, o que que este cara vai fazer comigo? Por que ele não me deixa  levar nada? Acho que ele vai me prender! Vai ver que você vai me levar pra lá  porque fiz coisas erradas. Você disse naquele dia ia me dar uma injeção se eu não parasse de mexer com  Milena. Meu pai vai também?

MOTPRISTA – Vamos? O tempo tá acabando. Tenho que levar o Doutor Roberto para almoçar.

ZEQUINHA – Vamos, mãe! Vamos!

            Chegam ao hospital e a equipe de Doutor Antonio Carlos está esperando.

            Um enfermeiro recebe a família e a leva para uma sala grande. Deve ser a ante- sala do diretor.

Dr AANTÔNIO CARLOS – Vamos começar nossos preparativos para a cirurgia. Vamos tirar esta coisa que te perturba aí, seu Zequinha. Vamos te deixar bom para voltar a brincar com seus amigos lá da rua. Mas primeiro você vai conversar com a psicóloga Martha.

            MARTHA – Oi! venha! Você é o Zequinha, não é? Vamos conversar um pouco? Depois eu chamo seus pais encerrarmos o assunto de hoje sobre você, sua cirurgia e um pouco sobre sua família.

            ZEQUINHA  (entra questionando): O que você vai fazer comigo?

MARTHA – Vou trocar umas idéias com você para saber o que está achando do tratamento; dessa história de fazer cirurgia. Amanhã é dia do Doutor lhe operar e você precisa continuar tranqüilo. Assim tudo vai ser legal!Já lhe conhecia de nome. Sua mãe me disse que você tem uns amigos lá em sua rua e você é um bom filho e um bom aluno.

ZEQUINHA –  Eu tô é com medo. o Doutor vai cortar na minha cabeça.Ele me disse que vou bom deste negócio que fez desmaiar. Será que vou mesmo?

MARTHA –  Como você pensa que é uma sala de cirurgia, Zequinha?

ZEQUIINHA – Não sei direito, mas deve ter uma faca, uma luz pro Doutor enxergar bem o que ele  vai fazer na minha cabeça. Mas eu tô é com muito medo. A enfermeira Sheila me disse que eu vou entrar na faca.

MARTHA – Me fale desta história que a tal Sheila lhe falou! Estou entendendo Zequinha. Se alguém me falar que vou entrar na faca eu também fico com medo.

ZEQUINHA – Ela xingou meu pai. Ela trabalha lá no Pronto Socorro com Doutor Wiliam Eu ouvi a Dra Elizabeth mandar ela calar a boca. Dr Wiliam é legal.

MARTHA – Se quiser falar mais do que está sentindo pode falar. Vou estar com você até o momento de você voltar para casa.

            Martha encerra a sessão com Zequinha e sua família e leva-o para o lugar onde o Doutor Antonio Carlos explica para seus pais os detalhes da cirurgia.

Dr ANTÔNIO CARLOS –  Foi bom você chegar, rapaz. Estou mostrando para seus pais estes exames e dizendo a eles que vamos te operar amanhã. A cirurgia vai ser meio demorada mas seu problema vai ser resolvido. Daqui a pouco, a Psicóloga Martha vai te levar e te mostrar  o centro cirúrgico e a enfermaria onde você vai ficar depois de operado até o dia de voltar para casa. Melhor dizendo: Quando você sair daqui, vai ficar primeiro na UTI até o momento de ir para a enfermaria. Lá é mais tranqüilo e tem uma Doutora muito legal. Tem uma equipe que vai cuidar muito bem de você.

            Naquele momento os pais ficam muito assustados e apreensivos e perguntam juntos(entoam): Que negócio é este de UTI? Então o problema é sério Doutor? É grave o problema dele?” Marcelinho está visitando Zequinha e ao ouvir o médico falando sobre a gravidade de Zequinha, xinga-o.

Dr ANTÔNIO CARLOS –  A UTI, apesar de parecer para vocês que é um lugar para morrer, é p lugar mais seguro quando  queremos evitar riscos em cirurgias, como a que vamos fazer em Zequinha. E depois, lá tem uma equipe de primeira linha. É a equipe de Doutora Márcia.

MARTHA – Deixa Antonio, que eu vou explicar com detalhes quem são os profissionais da equipe de Doutora Márcia!

            Carmita deita no ombro de Toninho que a acaricia para amenizar seu sofrimento.

            Um reporter do jornal Gazeta de Cerrânea chega ao hospital e procura pelos pais de Zequinha. (Alguém ligou anonimamente para o jornal e denunciou o jogo de interesse que ocorre no Hospital do Bosque).

Carmita - Sim, Senhor, o que deseja?

VITÓRIO –  Sou Vitório repórter do Jornal Gazeta de Cerrânea. Alguém ligou para nossa redação e falou tudo sobre o caso de seu filho Zequinha. Estou querendo escrever uma reportagem sobre este caso. Preciso de sua cooperação Senhora Carmita.

CARMITA – Não, Senhor Vitório. Já estamos com problemas demais e o Senhor está aproveitando da infelicidade de meu filho para fazer reportagens e vender jornais. Eu não quero.

VITÓRIO –  Não é como a Senhora pensa, Dona Carmita..A imprensa pode denunciar fatos como este e evitar que outras crianças passem pelo que seu filho está passando.

CARMITA (gaguejando) –  Eu, eu, eu não sei não,não.............

            Neste momento entra Marina.

MARINA –  Carmita, se você quiser eu falo com o Senhor Vitório. Ele tem razão. As coisas não podem ficar assim!

CARMITA –  Se o Diretor souber que falei alguma coisa com Seu Vitório, a coisa vai ficar ainda pior para meu filho. Ele vai perseguir meu filho, Marina.

MARINA –  Não vai! Ele pode até tentar, mas nós vamos chamar a comunidade de Cerrânea para tomar conhecimento e providências contra estes Gestores que usam o Serviço de Saúde para tirar proveito próprio. Para fazer trocas como o senhor Roberto tem feito.

CARMITA –  Só se você conversar com ele e perguntar se dá  para esperar meu filho sair daqui para depois publicar a reportagem.

VITÓRIO – Dona Carmita, em respeito ao Zequinha vou preparar tudo e só publicar depois que ele sair do hospital.

CARMITA – Me dão licença que preciso cuidar de meu filho.

            Carmita conta ao marido que ficou sabendo das qualidades de Doutora Márcia.

CARMITA – Me falarem que ela é muito boa, tem uma equipe muito boa e gosta muito de crianças.

TONINHA – (apresenta uma aparência mais tranqüila) respira fundo.

            Hora da cirurgia. Zequinha passa deitado numa maca em companhia da psicóloga Martha e dá tchau para os pais cujos olhos lacrimejam. Se abraçam e rezam juntos.

            Após umas cinco horas uma enfermeira chega à porta e diz:

ENFERMEIRA – Cadê os pais de José de Matos Silva Neto?

CARMITA – José de Matos Silva Neto é o Zequinha, Toninho.

TONINHO – É mesmo, sim, o que foi Dona? O que aconteceu com ele?

Enfermeira Walquíria – A cirurgia terminou e ele já foi para a UTI.

CARMITA – E como foi, senhora?

WALQUÍRIA – Dentro do esperado. O Doutor Antonio Carlos vai descansar e mais tarde vai lhes dar explicações sobre o que aconteceu com a operação do menino. Vocês podem ir para a sala de acompanhantes da UTI. Lá tem um trabalho com a psicóloga. Vocês devem estar muito ansiosos com a cirurgia de Zequinha e com o que vai ocorrer com ele enquanto estiver aqui no hospital. Falem com ela sobre o que vocês estão sentindo; ela pode ajudar. Vou deixá-los lá.

 

                        INTERVALO

 

            Dr Antonio Carlos chega e pede para os pais irem para uma sala perto da UTI. Explica sobre a cirurgia e eles parecem mais descontraídos. Conta aos pais que vai a UTI com a freqüência necessária para conversar com a Doutora Márcia sobre a recuperação de Zequinha.

            Os pais voltam para a sala de repouso de acompanhantes e começam uma sessão de psicoterapia de grupo com  a psicóloga.

            Na sala de repouso, todos falam com Martha. Alguns se mostram felizes com o hospital, outros ainda estão muito angustiados, outros ainda estão marcados pelo sofrimento que passaram até chegarem ao tratamento dos filhos. Dona Carmita lembra e pensa em voz alta que “ neste exato momento, muitos devem estar procurando em vão algum tipo de tratamento para seus filhos e penando como nós penamos"

CARMITA – Eu sei que conseguimos o impossível para nosso  filho, mas sei também que foi graças a bondade de alguns profissionais que tivemos a felicidade de encontrar em nosso caminho, mas devo dizer o quanto me aborrece saber que muita gente passa dias e dias sendo jogado pra lá e pra cá sem op acolhimento que tivemos.

            Uma das maiores queixas no grupo de pais é sobre a desigualdade social em Cerrânea.

            A psicóloga Martha termina a sessão. Os componentes do grupo ficam por ali e continuam  com o debate sobre a saúde pública e seus dilemas.

            Bem no meio das discussões entra o repórter Vitório e tenta entrevistar as pessoas, mas o guarda o empurra para fora do recinto.

MARINA – Deve ter vindo a mando do Doutor Roberto. Ele não quer que suas sujeiras sejam descobertas.

            Ali mesmo (na sala de repouso de acompanhantes), alguns dormem e outros vão para suas casas.

            Acordam. Dona Carmita até já dá conta de acalmar uma senhora que também está passando por algumas dificuldades. A mulher está muito angustiada.

TONINHO – (Solilóquio): Agora vou mudar de vida. Vou parar de jogar, vou ficar mais em casa com minha família..          

Doutora Márcia chega correndo e chama os pais de Zequinha com urgência.

Dra MÁRCIA – Onde estão os pais de Zequinha? Chamem eles aqui! Preciso falar com eles com certa urgência!

            Os pais chegam correndo, mas Dra Márcia esclarece que o problema não é com Zequinha e sim com sua irmã Milena.

            Dra MÁRCIA – A filha de vocês teve uma crise de ansiedade e acabou desmaiando. Ela veio para o Pronto Socorro do Bosque e já pedimos para apressarem seu atendimento. Isso pode ter ocorrido por causa do processo pelo qual a família vem passando. Vou pedir para um de nossos psicólogos atendê-la. Deixa acabar os exames lá no Pronto Socorro. Se for preciso, vamos pedir também para uma psiquiatra da Infância conversar com ela. Talvez neste momento seja preciso medicá-la. É bom um de vocês ficar lá com ela. Zequinha está bem e amanhã vamos fazer um estudo do caso para decidirmos quando terá alta.

            Dona Marina vai engenhando uma maneira de desvendar o crime que vem ocorrendo nos hospitais de Cerrânea- a discriminação de pacientes pobres, e o jornalista Vitório pega a causa como um ponto de honra. Ele já prepara um resumo da matéria para mandar ao seu jornal e também para as emissoras de rádio e de televisão.

MARINA –  Quero levar isso à frente, Vitório. A saúde não  pode mais ser gerenciada por esses inescrupulosos não.

VITÓRIO – A batalha vai ser muito grande Dona Marina, mas eu também já tive parentes  indo e vindo sem conseguirem atendimento na rede hospitalar. Não podiam ir para hospitais privados porque não podiam pagar. São caros demais. Os hospitais públicos não conseguem fazer face à demanda. Quando o governo consegue criar um serviço de boa qualidade, acontece o que assistimos no Hospital do Bosque. Ele acaba virando um meio político para os inescrupulosos.

           

            PAUSA

           

            Já é outro dia e a família de Zequinha é incluída na reunião onde será discutida a alta de Zequinha.

Dr AANTÔNIO CARLOS – Bem, minha gente, o exame histopatológico..

TONINHO (Interrompe) – O que é isto Doutor? (Isto o que?)

Dr ANTÔNIO CARLOS – É um tipo de exame que se faz para ver se o tumor do paciente é maligno.

TONINHO – O que é isto Doutor? Maligno? Eu hein!

Dr ANTÔNIO CRLOS – Fique bem calmo Seu Toninho! As coisas estão acontecendo como queríamos. Mas o que eu tentava explicar mesmo é que os exames deram normais. Ele não tem nenhuma doença incurável. Era apenas um tumor benigno.

TONINHO – O Doutor só fala grego. Que diabos é benigno?

Dr Antonio Carlos – (já meio impaciente) Ponha na cabeça homem! Seu filho não tem nenhum câncer e breve estará brincando com seus amiguinhos lá da rua. Entendeu Senhor Antonio? Resumindo: José de Matos teve uma resposta surpreendente ao tratamento. O exame da peça que mandamos para o laboratório de histologia não acusou nada mais grave. E por favor, Seu Antonio, se acalme! Não se assuste com os nomes estranhos que falamos por aqui não! Era um tumor benigno! Felizmente operável. O Zequinha foi muito cooperativo e até arrumou uma confidente no hospital. Anda de papo com Martha. Cheios de segredos.

            Acabou o abatimento e agora ele só fala na volta para a casa. Márcia não veio para esta reunião, nem a médica da enfermaria onde Zequinha ficou. Elas acham com toda certeza que ele não está mais precisando de hospital.

            Dr ANTÔNIO CARLOS – A partir de hoje ele está de alta e só deve voltar ao ambulatório para revisão daqui a um mês. Agora preciso sair porque outro menino está esperando para uma  cirurgia quase igual a sua Zequinha. (DEU UM ABRAÇO EM ZEQUINHA E EM SEUS PAIS. AGRADECEU MARTHA E OS DEMAIS FUNCIONÁRIOS QUE PARTICIPARAM DA CIRURGIA DE ZEQUINHA E OS CHAMOU PARA MAIS UMA JORNADA. SURGIRAM ABRAÇOS DE TODOS OS LADOS.)

MARTHA – Milena deve ficar em terapia comigo no ambulatório. Hoje vai para casa participar da festa de chegada de  Zequinha. Virá aqui uma vez por semana.

MARINA – Bem, gente, então vamos.

           

            Ao chegar na rua onde mora, Zequinha provoca um tumulto. Todos queriam vê-lo. Após percorrer todos os cantos de sua casa, recebe os parabéns em coro, com balas, balões e uma bola que ganhou de presente. (Cantar parabéns em coro).

 

            Marina se une ao jornalista e fundam uma ONG para atuar junto ao sistema de saúde e buscarem juntos com a comunidade, melhoria da qualidade de atendimento aos usuários d Serviço de Saúde Pública de Cerrânea. Com a ONG, querem participar do processo de reciclagem dos Servidores da Renovada Instituição de Saúde da Cidade.

            Dr Roberto é destiuido do cargo de Diretor e processado pela má gestão do serviço público de saúde.

            O Hospital do Bosque é adotado como modelo para todos  o Sistema de Saúde da Secretaria de Saúde de Cerrânea. Suas equipes se tornam multiplicadoras para outros Sistemas de Saúde do país chamado Bonsenso.

            Sheila foi convidada a colaborar com o processo de humanização e chegou a se desculpar pelo engano que cometeu ao associar p que chamou de más condições de trabalho ao direito de maltratar os pacientes.

            Dr Wiliam se tornou o novo diretor do Hospital do Bosque com a assistência de Dra Elizabeth, sua esposa.

                                                                                                    

 

 

FINAL:

 

VITÓRIO –  E então Dona Marina? Não podemos deixar esta história parada neste capítulo. Vamos continuar trabalhando para a criação de uma ONG, para acompanharmos o trabalho dos hospitais? A continuar como está nossos usuários do Serviço Público de Saúde estão perdidos.

MARTHA – Olhem gente, o que vejo no Diário Oficial de Cerrânea. O Diretor do Hospital do Bosque foi demitido. Em seu lugar será nomeado o Dr. Wiliam e como Vice-Diretora a Dra.Elizabeth. Vejam! Como nosso grito valeu. Eu topo Senhor Vitório, fundar a ONG. Eu topo. Vejam mais gente! O Hospital do Bosque vai ser adotado como modelo para todo o Sistema de Saúde Pública de Cerrânea.

ENFERMEIRA VALQUÍRIA (chega com o Diário de Notícias de Cerrânea) – Olhem aqui gente! O hospital do Bosque já está sendo comentado até em Brasília. Segundop o que o jornal diz, ele poderá até ser modelo para o Sistema Nacional de Saúde pública de nosso país. NOSSO PAÍS PASSARÁ A SE CHAMAR “BOM SENSO!”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

           

 

 

 
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