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03/jul/2010

A criança e seu referencial

Autor(a): Jason Jair Frutuoso

O ser humano depende de seus pais pelo menos até o final da adolescência, uma vez que, antes deste momento, dificilmente estará preparado para gerir/administrar a própria vida. Estamos em constante desenvolvimento e, à medida que nos tornamos adultos, salvo as exceções, estamos aptos a “tocar a vida”, embora sujeitos aos tropeços e as regressões que podem ocorrer em todos os momentos da existência.

Ao caminharmos pela linha da vida passamos por várias experiências, sendo a primeira delas o aconchego do útero de nossa mãe, mais tarde seu colo, e em todos os momentos de nossa infância ficamos protegidos por ela ou por alguém que a substitua. Nessa caminhada teremos momentos gratificantes e momentos não tão bons.

Se nosso(a) cuidador(a) for muito temperamental e mudar muito frequentemente seu humor, ou seja, se ele(a) tiver humor instável, vamos entrar em conflito com razoável frequência. Imaginem uma criança tendo que a cada dia ou até mesmo em espaços de tempo menores, compreender tantas mudanças de humor, enfrentar tantos modelos de relacionamento como se estivesse convivendo com várias pessoas numa só.

Os casos abaixo, embora uma ficção, estão baseados em milhares de casos que ocorrem todos os dias no mundo.

Caso 01:

Uma senhora apresenta várias reações e ações distintas para o mesmo comportamento do filho Joãozinho: num primeiro momento ela acha graça quando ele se comporta, no segundo momento fica muito séria e calada, no terceiro momento se zanga e faz-lhe uma agressão verbal, no quarto momento ela o castiga fisicamente e ainda em outros momentos lhe faz ameaças do tipo, “não gosto mais de você, papai do céu vai lhe castigar” e outras ameaças mais. Então, Joãozinho fica enrascado, perdido em meio a tanta confusão.

Neste caso até que não será muito difícil a resolução do problema, bastando para isto que a referida senhora – referencial de Joãozinho – procure uma forma de estabilizar seu humor, ainda que para isto tenha que procurar orientação de um(a) especialista em saúde mental. Só haverá maior dificuldade se ela não conseguir reconhecer que sua instabilidade emocional é a principal fonte de conflito para o filho.

Existe outra situação que poderá ser também bastante complicada: É o caso de uma criança criada numa aglomeração familiar onde vários adultos cuidam dela. Se cada um tem ações diferentes para os mesmos comportamentos, isto vai funcionar como fator desestruturante para a criança. Vejam o exemplo abaixo:

Caso 02:

Pedrinho mora num endereço onde há várias residências: a de seus avós, onde também moram dois de seus tios; a de sua tia com três crianças; a de sua mãe com ele e seu meio irmão, além das constantes visitas de seu pai de quem sua mãe é separada. Todos os adultos dão ordens para as crianças e cada um deles tem liberdade de agir como bem entender quando alguma criança se comporta “mal”. Como os adultos daquele endereço tem conflitos não resolvidos que se somam aos conflitos desses com o pai de Pedrinho, a situação torna-se cada vez mais complicada para os menores, especialmente para Pedrinho que é portador de TDAH – Transtorno de Deficit de Atenção com Hiperatividade. Para complicar ainda mais, o pai de Pedrinho apanha-o todos os finais de semana e leva-o para sua casa, onde mora com sua segunda esposa e o filho do casal ainda bebê.

Quando o caso 02 foi relatado em um estudo de caso, uma colega de profissão disse: “Coitado desse menino!!” Mas na residência de Pedrinho e na casa de seu pai ninguém o chama de coitado, por causa de seus comportamentos ele já está sendo considerado um verdadeiro vilão, embora o percebamos como vítima – alguém que protagoniza uma história familiar complicada com prejuízos ao seu desenvolvimento emocional.

“E o que fazer com o caso 02?” – perguntaria o leitor.

Neste caso é necessário avaliar a criança e seu contexto familiar. Se necessário atender a criança dentro de uma visão mais ampla possível; orientar todos os membros das famílias com as quais Pedrinho convive, embora saibamos que isto é bastante difícil, uma vez que muitos familiares de crianças portadoras de distúrbios emocionais, por questões que eles próprios desconhecem, não percebem a necessidade de tal orientação. Se conseguirmos fazer com que todos os adultos da residência tenham ações semelhantes frente aos comportamentos de Pedrinho, sua relação com o meio familiar vai melhorar bastante e, consequentemente, seus comportamentos fora de casa também melhorarão.

A falha na comunicação entre o meio familiar e a criança é, com grande frequência, fator relevante no aparecimento das psicopatologias (doenças emocionais) infantis. Numa relação assimétrica, isto é, quando a criança relaciona com uma pessoa que possui muitas experiências psíquicas, o mais experiente poderá beneficiar ou prejudicar a menos experiente. Poderá se o caso de Pedrinho.

“Eu também era assim e até pior, hoje estou aqui ó, sou bom pai, bom trabalhador, ele também vai ficar bom”. Este é um relato bastante frequente de alguns pais que acreditam que o tempo trará a resolução para os problemas emocionais do filho.

Mas para que esperar que o tempo resolva problemas tão sérios, se cada pessoa é única e sua resposta ao mundo é tão diferente, mesmo que comparada ao pai, à mãe ou a quaisquer membros de sua família?

Em todos os casos é melhor prevenir que remediar.

 
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