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16/jan/2014

UMA VISITA SEM SURPRESAS

Autor(a): Jason Frutuoso

 

Hoje fui fazer uma visita à Igrejinha de Nossa Senhora de Fátima – aquela que Dona Sarah Kubstcheck mandou construir – situada numa Superquadra modelo de Brasília, ela é um dos Cartões Postais da cidade. Não me surpreendi com o que vi e confesso que vi menos do que esperava ver. Cheguei um pouco tarde, por volta de 11 horas, momento em que um rapaz desarrumava as tralhas de dormir e outros três andavam pra lá e pra cá, parecendo fazer ronda em torno da moradia.  

Fiquei por ali por uns 10 minutos, tempo suficiente para os três se reunirem e prepararem o baseado do dia. Tive forte desejo de chegar perto deles, mas confesso, tive medo de receber deles alguma agressão.

O medo pode ser uma boa maneira de nos defender, mas pode também ser um pecado que cometemos por uma aprendizagem social. Não seria um erro colocarmos o medo como mais um pecado capital; ele ficaria sendo o oitavo. O medo que sentimos dos nossos irmãos moradores de rua, nos faz ver coisas que não veríamos se a sociedade não tivesse nos convencidos de que aqueles são feras perigosas soltas nas ruas das cidades.

Puxei conversa com um homem que passava por lá, provavelmente um residente daquela Superquadra e ele me deu confiança, então lhe fiz uma pergunta: “Como vão os moradores da Igrejinha?” Ele, um pouco desconfiado, disse: “A situação tá feia, eles não só ficam lá fundo como também nos bancos ali ó”, apontando para os extensos bancos que ficam em frente à igrejinha. Deduzi que os que ali não estavam haviam saído para o trabalho – O Trabalho dos moradores de rua é diferente daquele que eu e você conhecemos – eles andam pela cidade batalhando o pão de cada dia, se sujeitando a toda sorte de humilhações, e quando a necessidade do organismo dependente aumenta eles acabam praticando pequenos e até grandes delitos.

Quando falamos de tal assunto não há como não nos emocionarmos e eu me emocionei, então voltei a cutucar o tal homem: “Quando vejo uma situação como esta, fico com um misto de pena deles e uma raiva dos que deixam o país chegar a este ponto”. Mas ele já preparado ao longo de muitos anos convivendo com aqueles vizinhos, disse: “Tenho pena só das crianças, dos adultos não consigo ter pena”. Não o interpelei de novo, mas resmunguei para ele ouvir: “Estes adultos ai são as crianças de ontem”.

Por trás de cada coisa que vemos por ai existe uma razão e, a tarefa que nos resta, é a de descobrirmos o que está por trás de cada razão! Até o cachorrinho daquele morador com o qual conversei acabou me incomodando, porque não tive razão nem mesmo para dizer que moradores de rua tem vida de cão.

Vi ali um cãozinho de luxo desfilando na passarela do lixo.

 
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